“Não vou trair Angola nunca, tenho-a no meu coração”-Bonga


O conceituado músico e compositor angolano, Barceló de Carvalho ou simplesmente Bonga, disse numa entrevista ao Diário de Notícias português que nunca trairá Angola, que tem o país em seu coração e que sente saudades da vivência no passado.

Ao relembrar suas vivências, Bonga contou que nunca vai abandonar Angola, que tem o país em seu coração, pois é angolano de raíz nascido no Kipiri, Bengo, e ex-morador de Luanda.

“Angolano de gema não vou trair Angola nunca, tenho Angola na minha muxima (coração). Nasci no Kipiri, que é na zona do Bengo, no Caxito, 60 quilómetros a norte, e depois fui para viver para Luanda”.

O artista lembrou-se do tempo em que os mais velhos o educavam, levavam-no para todo o lado, e disse que até hoje tem o cheiro do mato consigo. “Lembro-me dos velhotes, uma força tremenda. Eles educavam-nos, davam-nos o exemplo, levavam-nos para todo o lado e eram responsáveis. Até hoje eu tenho o cheiro do mato comigo. E guardo também os comeres verdadeiros. Aprendi a cozinhar com a minha avó, faço-os em minha casa”.

Bonga não deixou de dizer que guarda exemplos dos tempos passados e que quando faz pratos típicos de Angola faz questão de chamar os amigos para juntos saborearem as refeições.

“O facto de no passado a vizinhança alimentar os filhos uns dos outros, é um exemplo do que trago de um outro tempo. Quando faço uma comida tenho de chamar amigos, vêm saborear comigo, na galhofada, a gente vive e revive o antigamente”, sublinhou.

Quanto a sua relação com o também músico e compositor, Rui Mingas, o artista frisou que apesar de terem tido uma grande ligação e terem cantado temas juntos, em Portugal, não é mais e não voltará a ser amigo de Rui Mingas, justificando que o facto do mesmo ter entrado para a vida política estragou tudo.

“Em Portugal tínhamos uma grande ligação, cantámos juntos e cantámos temas um do outro. O Rui Mingas, Reis Pires e o Cumura Imboá já estavam em Portugal, bem como os jogadores de futebol como o Nando Vieira Dias, que ganhavam mais e pagavam as farras. Meteram-se os partidos políticos no meio e estragaram tudo. Já não sou amigo dele e nem volto a ser”, afirmou Bonga numa entrevista ao Diário de Notícias português.

O artista disse também que sente saudades e gostaria de escrever sobre a vivência no passado, a forma de estar na vida e sobre o tempo em que para si o africano não precisava da ideologia importada, nem das psicologias alheias.

“Sinto saudade da vivência. Gostaria de escrever sobre essa forma de estar na vida, com o ritmo sempre presente. O africano não precisava da ideologia importada, nem das psicologias dos outros, tinha a sua filosofia. Isso faltou neste tempo da independência. Fazem falta pessoas motivadas com dom de palavra, e com espaço na família. Já não existe esse espaço”.

Sobre a sua terra natal, o considerado por muitos como o rei do “Semba” nacional , contou que vem à Angola quando lhe convém e que não aconselha a sí próprio vir para cá. “Vou quando convém lá ir. Não me aconselho a mim próprio a lá ir, por causa das engrenagens várias que existem”.

 

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